sábado, 22 de outubro de 2011

nosso rascunho

(amedeo modigliani)


ao conhecer
tua alma
desenharei teus  olhos
nas palmas das mãos

pelos versos
não tatearei
para não te
cegar

e fecharei os olhos
das angústias
para não perder
teu horizonte

almas dadas
traçam o mesmo
rumo
em diferentes
caminhos

ali adiante
talvez
nos alcance
nosso destino

estro





quando me deito
nua
em verso
os pelos se eriçam

nem a verve
de falo pulsante
é mais extasiante

quando me entrego
nua
em apelos
o verso regozija-se

a mão
seca de sóis
fertiliza-se

e uma aurora
sem dores
é concebida

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

inocência

a insônia me faz
testemunhar
todos os crimes
da noite

já não nego
quando o dia
me acusa
de cúmplice

travesseiros
e lençóis
desprezados
são prova cabal
de meu suposto
delito

condenada
à revelia
ergo mãos
e me rendo

à dúvida

domingo, 16 de outubro de 2011

veredicto

(ophelia - john everett millais)
dedicado à luz

tua carne
procura carente
a crueldade de unhas
e lâminas?
tanta ingenuidade
merece o castigo

esconder mágoa
em dor menor?
apenas sangue
correrá livre
  
sofres
o medo de sofrer
e medra em ti
o medo da morte?

és futuro cadáver
e já tens vermes
a te devorar
não há como
abortar tua cova

o dia de tua morte
anunciou-se
em teu primeiro grito

conforma-te
e dedica o tempo
que te resta
a aperfeiçoar
teu sepulcral elogio

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

guernica

entregar-se a uma leitura dentro de noite imensa (nos olhos, no peito) é fazer-se texto e escapar da textura desmedida das alucinações, das constatações que diminuem espaço e sufocam, sufocam... e como texto, sobreviver e eternizar-se

olhei detidamente por horas a pintura "Guernica" de Pablo Picasso... angústia, pesar somam-se à admiração e embevecimento diante da obra


Picasso escreveu sobre:
"Gritos das crianças, gritos das mulheres, gritos dos pássaros, gritos das flores, gritos das árvores e das pedras, gritos dos tijolos, dos móveis, das camas, das cadeiras, dos cortinados, das panelas, dos gatos e do papel, gritos dos cheiros, que se propagam uns após outros, gritos do fumo, que pica nos ombros, gritos, que cozem na grande caldeira, e da chuva de pássaros que inundam o mar"


realmente, tudo grita na obra, até a criança morta, a flor deslocada, a espada deposta de sua força; e comovida grita minha pele
se pintura é vista ao contrário, tudo permanece gritando e as figuras continuam angustiantes; mas, surge, em meio à guerra emotiva, a figura de um anjo, de cabeça erguida e olhos silenciosos... e surge  minha redenção:

hirta flor
vela espada

mão de mãe
é asa de anjo

pássaro berra
em esquecimento

peso flutua
no peito contrito

encolho braços
afronto sentidos

os gritos
os gritos
os gritos

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

desencontro

estremeci
diante da vista
que esperneava
afora da fresta
que me espargia

os caminhos
reclamavam-se
sob a pouca luz
que já não definia
horizonte

nenhum deles
queria me levar
pois sabiam
do peso
que lhes cavaria
buracos

é sempre assim
quando acordo
: vejo meu rumo
fugindo de mim